Sobre o fim da análise
- jessepsi

- 2 de jan.
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A questão sobre até quando vai o tratamento psicanalítico pode surgir como uma dúvida para as pessoas que estão em análise ou considerando iniciar esse tipo de psicoterapia. Pretendo neste texto esclarecer de forma breve alguns pontos sobre esse assunto, apesar de ser um tema complexo.
Desde a origem da psicanálise, no início do século XX, Freud buscava aprimorar a técnica analítica com o objetivo do tratamento ser o mais eficaz e eficiente possível por razões claramente justificáveis. O tratamento precisava entregar o que prometia, seja a superação ou pelo menos o alívio dos sintomas, e se esperava que entregasse esses resultados com o menor custo de tempo e dinheiro possível. Mas essa busca pelo aprimoramento da técnica ao máximo para atender a essas expectativas, apesar dos avanços notáveis, encontrou algumas barreiras relacionadas à própria natureza do sofrimento psíquico.
A primeira dificuldade é reduzir a duração do tratamento. A psicanálise possibilita mudanças psíquicas profundas como a superação de traumas de infância, a remissão de sintomas incapacitantes e transformações existenciais significativas. Mas para isso exige um empenho equivalente por parte da dupla terapêutica (analista e analisando), pois aquilo que se formou (o sintoma) durante muitos anos ou de maneira muita intensa, não se dissolve facilmente.
Nesse sentido, além do estabelecimento de um vínculo favorável, é necessário que a pessoa que se submete ao tratamento consiga dedicar no mínimo 50 minutos por semana, ou a cada 15 dias, para as sessões durante vários meses seguidos sem um prazo fixo de término. Ao longo desse período de tratamento podem acontecer interrupções em razão das férias do analista, viagens de trabalho por parte do analisando ou por outros motivos, desde que não prejudiquem o andamento da análise.
Há situações em que a análise é interrompida e depois retomada, seja com o mesmo psicanalista ou com outro, por vários motivos. Também é possível concluir uma análise e depois de certos acontecimentos na vida iniciar outra. Portanto, a duração do tratamento psicanalítico é de longo prazo e se estende por alguns anos, o que pode desmotivar algumas pessoas que estão em busca de resultados rápidos.
Sobre essa busca por resultados rápidos, geralmente ela está associada a algumas resistências inconscientes que funcionam como obstáculos ao tratamento e escondem questões mais profundas e complexas, as quais valem a pena ter paciência para elaborar. Digo isso com base na minha experiência, na literatura especializada e nas discussão de casos com outros psicanalistas. As pessoas querem se livrar do que incomoda, mas não querem saber sobre ou dedicar tempo para solucionar.
É importante citar também que existe a alternativa da psicoterapia breve, na qual já se estabelece no início quanto tempo será dedicado ao tratamento. Entre as vantagens desse tipo de psicoterapia está a previsão antecipada de quanto tempo e dinheiro será investido no processo, o que possibilita um certo planejamento. Outra vantagem é a dedicação de esforços psíquicos para a resolução de questões e problemas específicos e pontuais, os quais não demandam tanto tempo quanto um tratamento longo e a psicanálise pode realmente ajudar apesar de não interver de forma mais profunda como poderia. Segundo Freud (2020[1937]), estabelecer em que situação deve-se empreender uma análise com prazo determinado é uma questão de tato do analista, que fará a avaliação do caso e das condições para o tratamento.
Ele também alerta sobre a importância de levar em consideração alguns riscos em relação à psicoterapia breve. Criar uma expectativa elevada em resolver no período determinado um problema específico pode impactar negativamente a condução do tratamento. A pessoa pode se sentir pressionada a corresponder à meta fixada e se frustrar, o que terá como resultado uma vivência negativa ao tentar tratar aquele problema e não conseguir.
Além disso, outras questões tão importantes ou talvez mais pertinentes não ganham a atenção necessária, pois o tempo não foi suficiente para a pessoa se abrir, perceber outros aspectos ou aquele conteúdo inconsciente emergir. Nesse caso, as chances da pessoa buscar ajuda novamente pode ser menor e o quadro pode agravar com o tempo.
Dessa forma, a duração de uma análise é definida pela própria análise e isso significa que o motivo da procura, como a questão é tratada pela dupla (analista-analisando) e o curso do tratamento é da ordem do singular. É necessário um início, um meio e um fim, e tal fato é universal, vale para todos os casos, mas cada uma dessas etapas não é igual para todo mundo, isso é singular, é único.
Em alguns casos, após um certo tempo de tratamento, depois da remissão de alguns sintomas, o tratamento é "concluído", mas depois pode ser iniciado novamente por outras questões os as mesmas de uma outra forma. Além disso, existem aspectos da condição humana que são insuperáveis e conduz a análise ao infinito, mas esse é tema para outro texto.
Portanto, essa forma de tratar o sofrimento psíquico vai no sentido oposto ao estilo de vida pós-moderno no qual vivemos, cada vez mais acelerado e com urgência e promessas de resultados rápidos em todos os campos da vida. Reconhecer essas delimitações não invalida ou descredibiliza a psicanálise, mas atesta seu rigor prático, teórico e principalmente ético.
Assim, acolher um paciente para iniciar um tratamento por meio da psicanálise não pode ser um gesto precipitado, mas sim uma escolha com propósito e engajamento para sustentar o percurso da análise com seus ganhos e suas perdas, com aquilo que há de possível e impossível. É colocar em causa, em movimento, o desejo de análise da pessoa que busca e de quem conduzirá o tratamento.
Espero ter esclarecido algumas dúvidas ou despertado outras questões interessantes. Caso você seja alguém que queira iniciar seu tratamento, entre em contato para marcarmos uma primeira entrevista.
Referências bibliográficas
FREUD, S.. Fundamentos da clínica psicanalítica. Trad. Claudia Dornbusch. - 2ª ed.; 3. reimp - Belo Horizonte: Autêntica, 2020 - (Obras incompletas de Sigmund Freud; 6)



